O financiamento de veículos usados em 2026 marca um ponto de inflexão: as taxas médias subiram, o prazo máximo recuou e as instituições financeiras aumentaram a exigência de entrada (redução do LTV). A combinação reflete tanto a alta da Selic quanto a deterioração da inadimplência nesse segmento, que cresce mais rápido que a dos novos.
O cenário atual do crédito para usados
O financiamento de veículos usados sempre foi mais arriscado que o de novos — afinal, o bem deprecia mais rápido e a garantia se desvaloriza rapidamente. Em 2026, as financeiras responderam a esse risco elevando bastante a taxa média. Enquanto veículos novos operam com taxas na faixa de 18% a 22% ao ano (a depender da marca e instituição), usados saltaram para 24% a 32% anuais. Prazos máximos também caíram: de 60-72 meses para novos, usados agora raramente ultrapassam 48 meses.
O LTV (Loan-to-Value) — índice que mede quanto se empresta sobre o valor real do bem — também se contraiu. Financeiras que antes aceitavam 90% do valor de avaliação (150 mil reais emprestados para um carro de 165 mil) agora exigem 80% ou menos. Isso significa entrada mínima de 20%, contra 10% que era praxe há dois anos.
Por que o risco aumentou
A inadimplência no segmento de usados cresceu 18% em 2025 versus 2024 (segundo relatórios de instituições como ANEF e dados de portais de recuperação). Três fatores explicam: (1) o público que financia usados tem renda mais volátil que quem compra novo; (2) com inflação acumulada, a pessoa tem menos sobra para a parcela; (3) a depreciação acelerada do bem cria situação de underwater (dever mais que o carro vale), desestimulando a negociação em caso de dificuldade.
Seminovos (0-3 anos) funcionam como categoria intermediária: taxas entre 20% e 26%, prazos de 48-60 meses, LTV em torno de 85%. Isso porque o risco é menor — ainda há cobertura de garantia estendida do fabricante e depreciação mais previsível.
Ajustes de política das instituições
Em resposta, as financeiras implementaram em 2026: (a) análise de renda mais rigorosa — agora exigem comprovação de renda mínima de 3x a parcela (antes era 2,5x); (b) restrição a algumas marcas de usado — veículos asiáticos com mais de 10 anos saem de pauta, chineses com mais de 5 anos são evitados; (c) apólices de seguro obrigatórias em 100% dos contratos (antes era 80% dos casos); (d) gravame registrado em cartório em prazos menores — se antes permitiam 10 dias, agora exigem 48 horas.
Impacto para credores
Maior segurança, mas com custo operacional. Busca e apreensão em usados é mais cara (o bem está disperso no mercado, muitas vezes em zona rural) e a recuperação líquida é menor — um carro financiado por 120 mil reais vale talvez 95 mil no leilão após custos.
Impacto para devedores
Comprar usado ficou significativamente mais caro. Um carro de 150 mil reais agora custa: 30 mil de entrada + 24-36 parcelas de 4,5 a 5,2 mil reais (contra 3,8 a 4,2 mil há dois anos). Quem não tem bom score ou comprovação de renda fica de fora.
Em 2026, o mercado de financiamento de usados é uma realidade bifurcada: clientes com bom perfil de crédito e maior entrada conseguem taxa competitiva, mas a maioria enfrenta um custo operacional acima do histórico. Para credores, é a hora de refinar critérios de seleção e aperfeiçoar processos de apreensão — a rentabilidade cai se a inadimplência não for controlada com rigor. Devedores precisam estar atentos: com prazos menores e taxas mais altas, o carro usado agora é um compromisso maior.
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