Um automóvel financiado é frequentemente oferecido como garantia de crédito, mas na prática apresenta vulnerabilidades que comprometem a segurança do credor. Depreciação acelerada, contestações judiciais e dificuldades operacionais na busca e apreensão tornam essa garantia menos eficaz do que parece no papel.

Quando uma instituição financeira oferece crédito lastreado em um veículo, a lógica é aparentemente simples: o bem serve como garantia, e em caso de inadimplência, a busca e apreensão garante o recebimento. Mas essa premissa enfrenta desafios reais que reduzem significativamente o valor de proteção dessa garantia.

O problema da depreciação acelerada

Um automóvel perde valor rapidamente. Nos primeiros anos de financiamento, quando o risco de inadimplência é maior, a depreciação já consumiu parcela substancial do valor original. Se o devedor entra em atraso no 12º mês de um contrato de 60 meses, o veículo vale 30% a 40% menos do que na assinatura. Quando o credor finalmente recupera o bem após ações judiciais e procedimentos de apreensão, pode descobrir que seu valor residual é insuficiente para cobrir saldo devedor mais custos operacionais.

Riscos jurídicos na execução da garantia

A busca e apreensão enfrentou mudanças significativas na jurisprudência. Teses consolidadas no STJ estabelecem que procedimentos realizados sem observância de formalidades — notificação prévia adequada, respeito a horários permitidos, manejo correto da documentação — podem resultar em nulidade da ação ou condenação do credor em indenizações por dano moral. Alguns tribunais estaduais também desenvolveram entendimento restritivo sobre o direito de retomada extrajudicial, forçando o caminho judicial em casos que antes seriam resolvidos administrativamente.

Custo e prazo da recuperação

Entre a notificação do devedor e a venda do bem recuperado, podem passar 18 a 36 meses em média. Custos com armazenagem, seguro, manutenção, leilão e honorários advocatícios consomem parte relevante do valor final. O credor que imagina recuperar 80% do saldo devedor frequentemente realiza apenas 50% a 60%.

Alternativas e ajustes operacionais

Credores que mantêm o veículo como garantia precisam: (1) revisar procedimentos de notificação e apreensão para reduzir riscos de impugnação; (2) diversificar garantias (alienação de outros bens, fiadores, seguros de crédito); (3) calibrar limites de crédito com base em histórico de depreciação, não em valor de tabela; (4) negociar acordos de refinanciamento antes que a depreciação comprometa a garantia.

Para o operador de recuperação de ativos, a lição é clara: não trate um veículo financiado como garantia suficiente. Reforce processos de due diligence antes da concessão, documente cada etapa da apreensão com rigor para evitar contestações, e ajuste expectativas de retorno. A garantia é válida, mas frágil — exige manejo técnico e estrutura operacional robusta para justificar o investimento em sua execução.

Fonte primária gazetadasemana.com.br
Acessar fonte original →
Compartilhe: